O Brasil foi, por muito tempo, romantizado como um país de pessoas gentis e de um povo essencialmente cordial, mas a análise sociológica de nossa trajetória revela uma realidade muito mais áspera. A sociedade brasileira, desde a sua gênese marcada pela escravidão, carrega raízes profundas de discriminação, desigualdade e preconceito racial, social e de gênero. Esse legado histórico forjou uma violência que, embora muitas vezes camuflada, é cruel e elitista, alimentando uma cultura de exclusão que permeia nossas relações desde o início da nossa história.
Nesse cenário, assistimos com preocupação à estimulação de uma cultura da violência, onde o machismo é sedutoramente apresentado como sinal de coragem e o extermínio do “outro” é banalizado através de discursos em redes sociais, noticiários e até no esporte. Como guardiões da vida, precisamos compreender que essas ações são energias danosas que rompem o equilíbrio e a harmonia do ser humano. Essa aversão ao diferente é fruto de uma sociedade excessivamente centralizada na sobrevivência individual e no “ter mais”, onde o próximo é visto como um rival a ser diminuído ou excluído para que se possa obter vantagem. Sob o falso véu da meritocracia e do consumo, reforçado pela mídia oficial e pelas elites, corre-se atrás do objeto, esquecendo-se da busca pela vida plena.

Nossa passagem por este mundo é breve, “um abrir e fechar de olhos”, e temos a responsabilidade ética de entregarmos um lar melhor para as próximas gerações. Para romper com essa exploração financeira, política e emocional, precisamos resgatar a ética da clareza e entender que o conforto e a aparência não podem ser construídos sobre o preconceito e a violência. Somente a convivência e a cooperação mútua são capazes de enriquecer a vida e aumentar o potencial da nossa criação coletiva.
O caminho para a superação desse abismo histórico exige duas ações prioritárias: a Educação e a Lei. No entanto, não nos serve uma educação cívico-militar ou focada apenas na meritocracia, que estimula o individualismo e é planejada por interesses privados, como vemos ocorrer atualmente no Rio Grande do Sul. Precisamos de uma educação que, desde a infância, estimule a capacidade crítica de pensar e promova a cidadania real. Somente ao colocarmos a instrução a serviço da autonomia e da liberdade é que honraremos nossa vocação ontológica para o “ser mais”, transformando o Brasil em um projeto coletivo onde a alteridade e o diálogo real substituam a arrogância das certezas absolutas.
Selvino Scheibel





