
Nossa passagem por este mundo é breve, como um abrir e fechar de olhos, e carregamos o dever ético de entregarmos um lar melhor para quem vem depois. Nessa caminhada pela nossa vocação ontológica para o “ser mais”, a saúde não pode ser vista apenas como um conceito técnico, mas como a própria expressão da vida acontecendo maravilhosamente bem. No Brasil, essa garantia de dignidade possui um nome e uma estrutura que é nosso maior patrimônio social: o Sistema Único de Saúde (SUS).
Reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), o SUS é o marco de justiça social da nossa Constituição, garantindo o direito universal à saúde sem distinções. Sua magnitude foi provada de forma definitiva durante a pandemia, quando salvou milhares de vidas, atendendo desde a atenção básica até procedimentos de alta complexidade, como transplantes e vacinação. O SUS é o abraço do Estado que protege a todos — inclusive aqueles que possuem planos privados e que, na hora da medicina mais cara e complexa, recorrem ao sistema público para garantir sua sobrevivência.
No entanto, para que esse gigante funcione com o máximo de eficiência, a Constituição Federal reza que a saúde é uma co-responsabilidade dos entes federados. É urgente que Municípios, Estados e a União assumam suas responsabilidades de forma integrada, superando divisões partidárias em favor do bem comum. A lei é clara ao definir os investimentos mínimos: 15% para Municípios e União, e 12% para os Estados. Infelizmente, no Rio Grande do Sul, assistimos a um descaso inaceitável com essa norma fundamental.
Enquanto a população gaúcha sofre com emergências superlotadas, o governo de Eduardo Leite insiste em descumprir o patamar constitucional de investimento. Através de um acordo com o Ministério Público Estadual que adia o cumprimento integral da lei para 2030, o Estado deixou de investir cerca de R$ 1,3 trilhão no SUS somente em 2025. Como guardiões da vida, não podemos aceitar que acordos locais se sobreponham à autoridade da Constituição e ao direito inalienável das gentes à assistência digna.
A crise na saúde pública do RS não é um acidente do destino, mas o resultado de escolhas políticas que privilegiam o ajuste fiscal em detrimento da energia vital que sustenta o povo. Como sujeitos da história, nossa missão é trocar a arrogância das “certezas” de mercado pela ética da clareza, exigindo que os recursos públicos irriguem o sistema que protege a dignidade humana. Somente ao fortalecermos o SUS como um bem comum, e não como um balcão de negociações, estaremos honrando nosso compromisso com as próximas gerações e garantindo que a vida continue a pulsar em harmonia.
Selvino Scheibel





