O futebol possui a rara e potente capacidade de suspender nossas divisões cotidianas para forjar uma imagem de unidade nacional que transborda as arquibancadas. A imagem desta última Copa foi, acima de tudo, um retrato de cidadãs e cidadãos torcendo de forma apaixonada por seus países, independentemente de credos religiosos ou partidos políticos. Essa vibração não é um entusiasmo vazio; ela se fundamenta em um profundo sentimento de pertencimento social, na necessidade ontológica do ser humano de reconhecer-se no outro e de sentir-se parte de um projeto coletivo que honra seus conterrâneos e sua história.No entanto, essa celebração de identidades ocorreu em um cenário global de intensa turbulência. Vivemos tempos marcados pela crise da hegemonia dos Estados Unidos, cujo império se encontra em visível declínio na Europa e na Ásia. Essa nova realidade mundial aponta para uma ordem multipolar, onde o fim da supremacia absoluta não tem sido pacífico. Ao perder terreno em outros continentes, a política externa norte-americana passou a priorizar a América Latina de forma hostil, tentando reativar o antigo lema “América para os americanos” para garantir o controle de recursos estratégicos e naturais, como o petróleo.É nesse contexto internacional que a Copa do Mundo assumiu um relevante aspecto decolonial. Ver os países latino-americanos disputando de igual para igual com as potências tradicionais simboliza o resgate da aura de povos que se recusam a ocupar o lugar de “quase-coisas” ou colônias reflexas. A paixão demonstrada nas ruas é um grito de resistência contra a ingerência política, midiática e financeira que tenta ferir a nossa soberania nacional. Como ensina a pedagogia da autonomia, não podemos ser meros objetos da história, mas sim seus sujeitos; por isso, a afirmação de nossa identidade no futebol deve ser o prelúdio da defesa de nossa casa contra qualquer tentativa de sermos tratados, novamente, como território explorado.Nossa breve passagem por este mundo exige que sejamos guardiões da vida e da sociedade, o que inclui a proteção de nossa soberania frente à ganância do capital internacional. A pergunta que não quer calar é: onde estão os brasileiros que torceram loucamente pela glória do futebol quando nossa própria casa é ameaçada por intervenções que visam desestruturar nossa autonomia?. Ser patriota exige mais do que vestir a camisa; exige a ética da clareza para entender que o sentimento de união nacional deve nos aglutinar na construção de um país que seja, de fato, soberano, justo e pertencente ao seu povo.
Selvino Scheibel





