EDITORIAL: Em Defesa da Democracia e do Futuro — O Jornalismo Não Pode Vacilar

O portal Eu Amo Esteio nasceu com a missão primordial de construir pontes, cultivar o afeto pelo território e reagir à necropolítica por meio do conhecimento coletivo e da cidadania. Compreendemos este espaço digital como uma verdadeira esfera pública independente, livre de amarras institucionais, dedicada a fortalecer o interesse comum e a dignidade humana. Contudo, não há esfera pública viável, economia solidária sustentável nem liberdade comunitária onde a democracia esteja sob ameaça.

É sob esse compromisso ético e histórico que somamos a voz de Esteio ao manifesto conjunto articulado por dezenas de redações e veículos de jornalismo independente em todo o país: a sociedade brasileira não pode pagar para ver, e a imprensa não pode vacilar diante do autoritarismo.


A Lição da História e o Perigo da Normalização

Em 2018, setores expressivos da sociedade alimentaram a ilusão de que as regras do jogo e o peso das instituições conteriam e moderariam a retórica de Jair Bolsonaro. O resultado prático foi o oposto: foi o bolsonarismo que radicalizou o status quo. Durante quatro anos, o país testemunhou investidas permanentes contra a credibilidade das urnas eletrônicas, cooptação política das Forças Armadas, afronta aberta ao Poder Judiciário, tolerância complacente a manifestações golpistas e uma hostilidade diária contra a imprensa livre.

O fato de as instituições terem resistido ao estresse institucional de 2022 não atenua a gravidade do processo; apenas comprova que os freios e contrapesos funcionaram a duras penas. Convivemos com uma escalada tenebrosa de perseguição aos profissionais da informação: entre 2019 e 2022, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) documentou 1.442 casos de violência e agressões a repórteres, uma média anual três vezes maior do que a registrada na década anterior. Em 2022, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 557 alertas de violações, dos quais mais de 41% envolveram diretamente integrantes da família Bolsonaro.

A retomada da normalidade democrática trouxe avanços incontestáveis: os alertas da Abraji despencaram para 330 em 2023 e para 204 em 2025, enquanto o Brasil deu um salto histórico no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras, saindo da vexatória 110ª colocação em 2022 para o 52º lugar em 2026.


A Nova Roupagem da Mesma Ameaça

Não podemos nos enganar diante da tentativa de repaginação do extremismo. A pré-candidatura de Flávio Bolsonaro carrega as mesmas matrizes antidemocráticas. O tom menos verborrágico do senador não diminui a gravidade de suas diretrizes: sua plataforma central consiste na libertação de Jair Bolsonaro, na anulação de sua condenação pelo STF por tentativa de golpe e na ameaça explícita de alterações constitucionais para enfraquecer o controle do poder.

O histórico dessa linhagem política fala por si:

  • Desde 1999, Bolsonaro afirmava publicamente que daria um golpe de Estado e fecharia o Congresso se chegasse à Presidência, tendo homenageado torturadores da ditadura militar em 2016.
  • No Planalto, estimulou manifestações pelo fechamento do Congresso e do STF em 2020 e disseminou falsidades a embaixadores estrangeiros em 2022.
  • Essa trajetória atingiu seu ponto mais sombrio na articulação de um plano de assassinato de autoridades e no atentado contra a alternância de poder que levou à condenação do ex-presidente em 2025.

O senador Flávio Bolsonaro segue a mesma cartilha: negou em livro a existência do golpe de 1964, elogiou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra e, ainda em julho de 2026, insistiu em propagar desinformação sobre as urnas eletrônicas perante diplomatas internacionais. Diante desses fatos, ignorar o risco de erosão democrática e de enfraquecimento dos mecanismos que impedem a tirania seria uma cumplicidade indesculpável.


Informação é Direito Popular, Democracia é Condição de Vida

A defesa do jornalismo não é uma bandeira corporativista; ela é a garantia de que o cidadão comum terá acesso a fatos verificados e de interesse público. Sem uma imprensa livre, capaz de investigar desmandos e fiscalizar quem governa, as populações mais vulneráveis perdem a sua voz e a sua proteção.

Não se trata de alinhar o jornalismo a partidos ou governos circunstanciais, mas de reconhecer que sem Estado de Direito não há verdade possível, não há direitos sociais e não há futuro. O autoritarismo pode alcançar as urnas pela via do voto, mas cobra um preço devastador que leva décadas para ser superado. Em Esteio, onde trabalhamos diariamente para reconstruir a cidadania a partir das bases, reafirmamos que o amor pelo nosso território é indissociável da defesa intransigente da democracia brasileira.

Texto-base: O posicionamento do portal Eu Amo Esteio apoia-se e endossa o manifesto conjunto das redações brasileiras publicado originalmente em:

https://sul21.com.br/opiniao/2026/10/editorial-veiculos-de-jornalismo-se-unem-pela-democracia/.

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