Nossa passagem por este mundo é breve, como um abrir e fechar de olhos, e carregamos o dever ético de sermos seres humanos melhores e de entregarmos um lar mais justo para quem vem depois. No entanto, para cumprirmos nossa vocação ontológica para o “ser mais”, precisamos enfrentar com honestidade uma doença crônica que corrói o tecido de nossa nação: a profunda desigualdade social. A sociedade brasileira, desde a sua gênese, foi forjada em raízes de discriminação e exclusão, consolidando um modelo elitista que ainda não fomos capazes de superar.
Sob a superfície de uma suposta harmonia, o Brasil encontra-se dividido de forma abismal. De um lado, uma minoria de menos de 2% — composta por grandes empresários, banqueiros e setores do agronegócio — que detém cerca de 90% da riqueza nacional. Do outro, 98% da população, formada por trabalhadoras e trabalhadores que garantem sua sobrevivência apenas através da venda de sua força de trabalho. É imperativo reconhecer, com a ética da clareza, que essa opulência de poucos não nasce do esforço isolado, mas é alimentada pelo pulsar da vida e pelo suor da imensa maioria.
Para manter essa estrutura de exploração, as elites dominadoras lançam mão de narrativas ideológicas sedutoras que buscam anestesiar nossa consciência. A primeira delas é a falsa premissa da igualdade individual, que ignora as assimetrias de partida para justificar o desemprego e a fome como frutos de uma suposta “incompetência” ou “preguiça” pessoal. A segunda é o mito da meritocracia, que supervaloriza a conquista individual em detrimento do bem coletivo, camuflando a divisão de classes para apaziguar os ânimos e perpetuar a dominação.
Essa ganância, que não conhece limites, manifesta-se hoje na resistência contra avanços humanitários básicos, como a revisão da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Como guardiões da vida, não podemos aceitar que a existência humana seja reduzida a uma engrenagem de lucro, transformando pessoas em “coisas” a serviço do mercado. A verdadeira autonomia exige que o trabalhador desperte para a sua consciência de classe, compreendendo que o progresso técnico deve servir à libertação e não ao aumento da espoliação.
O caminho para a transformação exige uma educação que estimule a capacidade crítica de pensar, rejeitando modelos que apenas treinam o indivíduo para a sobrevivência competitiva. Precisamos de humildade epistêmica para desmascarar as farsas ideológicas e resgatar a coesão social através do diálogo real. Somente ao rompermos com o egoísmo do “ter” em favor da dignidade do “ser” é que honraremos nossa missão como agentes da história, construindo um Brasil onde a vida, em toda a sua aura, seja o valor supremo.
Selvino Scheibel





