Nossa passagem por este planeta é breve, como um abrir e fechar de olhos, e carregamos conosco o dever ético de sermos guardiões da vida e da dignidade humana. Nessa caminhada pela nossa vocação de “ser mais”, precisamos compreender que a saúde não é uma meta técnica ou uma mercadoria sujeita a etiquetas de preço; ela é, em essência, a própria maneira da vida acontecer maravilhosamente bem. No entanto, vivemos tempos estranhos onde a lógica voraz do mercado tenta sequestrar a “aura” do humano, transformando direitos inalienáveis em ativos financeiros.
É preciso desmascarar a falácia, alimentada por discursos de mercado e parte da grande mídia, de que “pagar menos impostos e contratar serviços privados” é o caminho para a eficiência. A realidade nua e crua nos mostra que sistemas baseados exclusivamente no lucro jamais garantirão um atendimento digno e universal, especialmente diante de procedimentos de alta complexidade. Doenças graves, como o tratamento do câncer, ou a necessidade de uma UTI após um acidente, geram as chamadas “despesas catastróficas”, capazes de destruir a vida financeira de famílias inteiras que acreditaram na ilusória segurança do mercado.
A presença do SUS (Sistema Único de Saúde) surge, então, como uma ferramenta essencial e um mecanismo de proteção social que abraça cerca de 90% da população brasileira. Do motorista de aplicativo à diarista, todos dependem dessa estrutura pública para vacinas, transplantes e vigilância sanitária. Mesmo aqueles que pagam planos privados, na hora da medicina mais complexa e cara, acabam recorrendo ao sistema público. Enquanto o modelo dos Estados Unidos — o mais caro do mundo — exclui milhões por incapacidade de pagamento, nações como o Reino Unido, França e Canadá reafirmam a saúde como um direito social e um dever do Estado.
Não podemos ignorar que a poderosa indústria farmacêutica, um dos maiores segmentos econômicos globais, muitas vezes parece priorizar o lucro sobre o bem-estar real das pessoas. O remédio, no balcão do mercado, frequentemente serve apenas para suavizar a dor e silenciar o sintoma, sem jamais enfrentar a causa da dor. Como seres racionais, nossa missão é agir com humildade epistêmica e clareza ética para entender que prevenir é mais eficaz e humano do que tratar.
Como guardiões da biosfera e da vida, não podemos permitir que a saúde seja tratada como um produto de prateleira. Fortalecer o SUS e resistir à privatização do que é essencial — seja a saúde, a educação ou a nossa água — é o único caminho para honrarmos o compromisso com as próximas gerações. A saúde é o pulsar da vida em harmonia e, por isso, deve ser sempre celebrada como um direito fundamental e nunca como uma moeda de troca.
Selvino Scheibel





